Marcelo B. Ribeiro1
endereço atual
Dept
Física Matemática, Instituto de Física - UFRJ,
C.P. 68528, Ilha do Fundão, 21945-970 Rio de Janeiro - RJ
referência
Boletim da Soc. Astronômica Brasileira, vol. 14, n
2, 34-63, (1994)
http://www.if.ufrj.br/~mbr/papers/cosmnwt/
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RESUMO
Nesse artigo procura-se mostrar como, a partir de hipóteses ad hoc, pode-se desenvolver modelos cosmológicos homogêneos e isotrópicos dentro da teoria Newtoniana elementar de gravitação. A partir de hipóteses básicas bastante simples, mostra-se como um modelo Newtoniano discreto pode ser construído e como pode ser derivada uma equação diferencial cosmológica que tem a mesma forma algébrica que a equação de Friedmann obtida a partir de argumentos relativísticos. Mostra-se também que um modelo contínuo pode ser obtido via uma simples generalização desse modelo discreto. O artigo também discute o comportamento da luz em cosmologias Newtonianas e analisa as limitações dessa forma de abordar a cosmologia.
This paper reviews how the use of very simple ad hoc hypothesis allows us to develop homogeneous and isotropic cosmological models within the elementary Newtonian theory of gravitation. By starting with very simple basic hypothesis, it is shown how a discrete Newtonian model can be built and how one can derive a cosmological differential equation algebraically equivalent to the relativistically derived Friedmann equation. It is also shown how a continuous model can be obtained via simple generalizations of the discrete model, and the behaviour of light in the context of Newtonian cosmologies is analysed. The paper finishes with a discussion about the limitations of this way of approaching cosmology.
Quando se pensa em cosmologia como ciência, em geral a teoria física que se tem em mente na abordagem, descrição e caracterização dos fenômenos dessa área de pesquisa é a Teoria da Relatividade Geral. Por causa disso, a cosmologia está geralmente associada à complexidade matemática inerente à geometria Riemanniana, isto é, a álgebra tensorial, variedades diferenciáveis, grupos contínuos de simetria, etc. Aliando-se ao fato de que a Relatividade Geral é uma teoria de gravitação formulada em uma geometria Riemanniana quadri-dimensional espaço-temporal, é freqüente que os não especialistas da área tenham a impressão de que a cosmologia só pode ser estudada por meio de todo esse aparato matemático.
No entanto, é talvez pouco conhecido que cerca de 15 anos após a formulação relativística da cosmologia moderna, formulação essa originada principalmente nos trabalhos de Einstein, Friedmann, de Sitter, Lemaître, Eddington e Weyl no início da década de 1920, foi possível demonstrar que vários dos resultados básicos dos modelos homogêneos e isotrópicos podem ser obtidos a partir de uma perspectiva puramente Newtoniana, isto é, usando-se um espaço plano e estático, o tempo Newtoniano, a dinâmica e lei de gravitação Newtonianos e mais algumas hipóteses convenientemente formuladas com o objetivo de se obter os resultados esperados. Foram E. A. Milne e W. H. McCrea que em 1934 reverteram o quadro então vigente na época de que a cosmologia somente poderia ser formulada via relatividade geral e mostraram que a teoria Newtoniana elementar também poderia ser usada para abordar o problema cosmológico (Milne 1934; McCrea & Milne 1934). Sendo a cosmologia Newtoniana mais facilmente assimilável devido a sua estrutura matemática mais simples, quando comparada com a cosmologia relativística, ela é particularmente interessante em um primeiro estudo da cosmologia. Ela também é particularmente útil como uma primeira aproximação no tratamento de problemas cosmológicos locais, onde somente numa etapa posterior todo o ferramental da relatividade geral se torna necessário. Como veremos, isso se dá porque as predições locais das cosmologias Newtoniana e relativística são indistinguíveis devido ao fato de que vários dos seus resultados básicos são algebricamente equivalentes.
Nesse trabalho de revisão procurarei mostrar as hipóteses básicas sobre as quais uma cosmologia Newtoniana pode ser construída, os principais resultados obtidos e as limitações da abordagem Newtoniana da cosmologia. Esse artigo está organizado da seguinte forma: a seção 2 apresenta uma discussão conceitual do princípio cosmológico e a seção 3 apresenta um modelo homogêneo e isotrópico discreto bastante simples, que é resultado direto das aplicações desse princípio básico. Na seção 4 o modelo discreto é generalizado para o caso contínuo e a seção 5 apresenta uma formulação alternativa para o modelo contínuo. Na seção 6 discute-se o comportamento da luz nessas cosmologias. O artigo termina com uma seção de conclusão e discussão onde os principais resultados são sumarizados e um apêndice onde, a título de tornar o trabalho completo, são apresentadas as principais soluções cosmológicas, isto é, os modelos cosmológicos onde a constante cosmológica é igual a zero.
Cosmologia é a área de pesquisa que procura descrever o Universo como um todo, isto é, o conjunto de todas os fenômenos e objetos astronômicos em sua maior escala. Sendo hoje uma disciplina científica na medida em que esse estudo utiliza o aparato teórico, matemático, experimental e observacional da Física, Astronomia e Astrofísica, a cosmologia moderna procura produzir modelos que serão uma descrição mais ou menos acurada do Universo observado, isto é, do conjunto de observações astronômicas que acreditamos serem fundamentais na descrição dos fenômenos astronômicos em larga escala. Em outras palavras, o Universo observado, ou simplesmente Universo, é o mundo real conforme compreendido através das observações astronômicas e, portanto, forma a base empírica sobre a qual os modelos cosmológicos, também chamados cosmologias, são construídos usando a Física e a Astronomia conhecidas. Por esse motivo, os modelos cosmológicos são também convencionalmente chamados de modelos de universo pois são essencialmente reprentações teóricas do Universo.2
Modelos de universo são, portanto, modelos matemáticos advindos das teorias físicas e, considerando que a Física desde os tempos de Newton é formulada por meio de equações diferenciais, dentro desta perspectiva podemos tentar formular uma breve definição da cosmologia e dizer que esta é o estudo do mais extenso dos sistemas dinâmicos. Em outras palavras, cosmologia é o estudo do mais remoto grupo de objetos nos quais as nossas leis físicas tenham significado e possam ser aplicadas de maneira consistente e bem sucedida. Esse grupo de objetos forma o substrato cosmológico, e assim, as galáxias, quasares, etc, serão então os elementos desse substrato.
Essa breve discussão procura mostrar que a cosmologia pode facilmente se tornar um problema intratável se for abordada em toda a sua generalidade, dado que pelo seu próprio escopo ela possui uma magnitude formidável. Por conseguinte, em cosmologia tornou-se fundamental que fossem assumidos alguns princípios de simplicidade que visavam reduzir e tornar factível e tratável o problema cosmológico, e historicamente o princípio mais amplamente utilizado é o assim chamado princípio cosmológico. Não pertence aos objetivos desse trabalho apresentar uma discussão detalhada acerca do princípio cosmológico, que pode ser encontrada, por exemplo, em Bondi (1960). Portanto, limitarei a discussão que se segue a uma breve exposição desse princípio no contexto Newtoniano.
O princípio cosmológico é essencialmente uma interpretação do princípio Copernicano que sustenta não haver pontos privilegiados no
Universo. Deste modo, podemos formular o princípio cosmológico da
seguinte forma: em cada época o universo não muda de ponto para ponto,
isto é, apresenta o mesmo aspecto em cada posição, com exceção das
irregularidades locais. Assim, a partir desse princípio podemos dizer que
se em um determinado tempo Newtoniano
não existem pontos
privilegiados, isto significa que o universo é homogêneo, isto é,
as quantidades cósmicas não irão depender da posição mas somente do
tempo. O princípio também requer que além da inexistência de pontos
privilegiados também não haja direções privilegiadas ao redor de cada
ponto, o que significa que o universo além de homogêneo é também isotrópico em cada instante do tempo Newtoniano.
As hipóteses de homogeneidade e isotropia
advindas do princípio cosmológico implicam
que o movimento do substrato cosmológico deve
ser esfericamente simétrico ao redor
de uma origem fixa
,
o que implica que o movimento das galáxias
será puramente radial. Para tornar claro este ponto, vamos imaginar o
seguinte exemplo. Consideremos um pequeno triângulo formado por três
partículas do substrato cosmológico em um determinado tempo t, e um segundo
triângulo formado pelas mesmas partículas em um tempo posterior t'.
O segundo triângulo vai diferir do primeiro em vários aspectos, mas
quando nós usamos o fato de que o princípio cosmológico requer que o
espaço seja homogêneo e isotrópico, isto é, que não haja nenhum ponto
ou direção preferencial, então isso implica que o segundo triângulo no
tempo t' deve ser geometricamente similar ao primeiro no tempo t.
Portanto, se o universo não é estático, isto é, se há expansão ou
contração, o fator de magnificação (ou redução) deve ser
independente da posição dos triângulos no espaço. Assim, a
distribuição e movimento das partículas no universo será dependente
de um mesmo fator de magnificação/redução tal que os raios das
distâncias correspondentes aos pequenos deslocamentos sejam os mesmos
em todos os tempos. Em outras palavras, o movimento das partículas do
substrato cosmológico terá que ser puramente radial, e esse fator de
magnificação/redução dependerá apenas do tempo. Para exemplificar
essas idéias vamos considerar a seguir um modelo discreto simples.
Podemos construir um modelo cosmológico discreto se assumirmos
que o universo consiste de um número finito n de galáxias
(Landsberg & Evans 1977; d'Inverno 1992). Assim, se
a galáxia i tiver uma massa mi e estiver na posição dada pelo
vetor
a partir de uma origem de coordenadas
,
pelo princípio cosmológico essa distribuição de galáxias
deverá ser esfericamente simétrica em torno de
e, portanto, o
movimento das galáxias será estritamente radial. Desta forma podemos
escrever que
Vamos assumir agora a existência de uma força cosmológica que atua
na galáxia i na seguinte forma
Suponhamos agora que em uma determinada época fixa, isto é, em um
determinado valor t0 do tempo Newtoniano, o movimento e distribuição
do sistema seja conhecido. Assim, como pelo princípio cosmológico o
movimento do sistema é radial, isso implica que em qualquer tempo tteremos
Por meio da equação (9) podemos escrever a velocidade radial da
galáxia i como sendo
Substituindo as equações (9) e (10) em (8) obtemos que
a energia total do sistema será dada por
A equação (13) é chamada de equação diferencial cosmológica
para o fator de escala S(t) e tem um significado físico simples. Se
e o sistema de galáxias, isto é, o universo, estiver sofrendo
uma expansão, então o segundo termo do lado direito diminui. Como a
energia total permanece constante, então o primeiro termo do lado direito
da equação (13) também precisa diminuir, o que implica que a
expansão está decrescendo. Se
for positivo, então todas as
galáxias estarão sofrendo uma repulsão cósmica que as impulsiona para
distâncias cada vez maiores da origem, e portanto, a constante
cosmológica estará contribuindo positivamente para a expansão do
universo. Se
for negativo ocorre o inverso, e o termo
cosmológico vai agir contra a expansão, diminuindo-a progressivamente.
O quanto a expansão vai diminuir, ou por quanto tempo ela vai durar,
são questões típicas em cosmologia.
A equação (13) pode ainda ser escrita numa forma algébrica quase
idêntica à obtida na cosmologia relativística Friedmanniana. Pondo
em evidência e considerando a definição (16) obtemos
Para concluir essa seção é importante chamar a atenção de que a interpretação do termo k na teoria Newtoniana difere da obtida na cosmologia relativística. A equação (20) mostra que a teoria Newtoniana interpreta esse termo como energia, enquanto que na cosmologia relativística k vai especificar a curvatura do espaço.
O modelo apresentado na seção anterior pode ser extendido para uma
descrição contínua se admitirmos, conforme o princípio cosmológico,
que toda a massa do universo está distribuída uniformemente em cada
época t (Landsberg & Evans 1977). Assim, a densidade de matéria
vai depender apenas do tempo e, portanto,
torna-se a
principal função em termos da qual o Universo será descrito. Vamos
supor então que o nosso modelo de universo apresentado até o momento
é limitado por uma superfície esférica
cujo raio será função
apenas do tempo. Assim, o raio dessa esfera em qualquer tempo t será
dado por a(t), e a origem
do sistema de coordenadas estará
situada no centro dessa esfera.4
Em uma época t0, isto é, no tempo de referência t0 onde o
movimento e distribuição do sistema é conhecido, a casca esférica com
raio x e espessura d x, terá uma área dada
e um volume
igual a
.
Assim, a massa contida nessa casca esférica será
dada por
O coeficiente D é facilmente calculado usando a equação (27), de
onde obtemos que
Passemos agora ao cálculo de B. Nesse caso é conveniente supor, conforme
dito acima, que i < j somente se a galáxia i não está mais distante
do centro
do que a partícula j. Isso significa que o potencial
gravitacional no local da galáxia j no tempo t0 devida a todas as
partículas i situadas mais próximas do centro
do que j será
dado por
Para calcularmos C é necessário notar que utilizando as equações
(9) e (18) podemos escrever que
Para concluir essa seção é importante notar que os resultados apresentados até agora mostram claramente que podemos estudar os modelos cosmológicos mais simples e populares através de uma abordagem puramente Newtoniana, desde que algumas hipóteses simplificadoras básicas sejam convenientemente formuladas.
A dedução do modelo cosmológico contínuo via uma simples generalização do modelo discreto, como discutido na seção anterior, tem a vantagem de tornar possível chegar às equações contínuas por meio de um raciocínio bastante simples e direto. No entanto, tal maneira de apresentar o problema tem a desvantagem de não tornar claro os desdobramentos das várias hipóteses físicas básicas assumidas ao se construir uma cosmologia Newtoniana. Nessa seção procurarei apresentar o modelo contínuo de uma forma um pouco diferente de como foi discutido até o momento com vistas a tornar explícitos tais desdobramentos e enfatizar as hipóteses físicas assumidas.
Até o momento foi suposto que o substrato cosmológico é composto
por partículas pontuais (basicamente galáxias) cujas posições
são descritas por um vetor
a partir de uma origem de
coordenadas
.
Ao se fazer a passagem do modelo discreto para o
contínuo assumiu-se implicitamente a hipótese de que o substrato
cosmológico pode ser pensado como um fluido onde a dinâmica
Newtoniana é válida. Em outras palavras, a partir da hipótese contínua
pode-se pensar o substrato cosmológico como sendo formado por uma
grande nuvem gasosa onde as galáxias são ou as partículas deste gás
ou condensações localizadas do gás intergalático, condensações
essas que indicam o movimento médio do gás na sua vizinhança.
É importante frisar que tal nuvem gasosa não pode ser
assumida como sendo infinitamente grande, mas como sendo
arbitrariamente extensa porém finita, a não ser que
o potencial Newtoniano seja forçado a obedecer condições
de contorno especiais. O problema básico reside no fato de
que a teoria Newtoniana de gravitação encontra problemas
sérios quando aplicada a sistemas infinitos. No caso de um
universo Newtoniano infinito, essa dificuldade aparece quando
calculamos o potencial gravitacional em um sistema homogêneo
esfericamente simétrico, isso porque o resultado obtido mostra
que esse potencial em um determinado ponto devido a toda a
matéria do universo torna-se infinito na teoria Newtoniana.
Tal resultado pode ser obtido se notarmos que na superfície
esférica
o potencial gravitacional dado pela
equação (34) torna-se
Essa hipótese, no entanto, traz uma dificuldade com o princípio cosmológico: a importante diferença entre uma nuvem de gás infinita e uma finita é que a última tem um centro único enquanto que a infinita não tem. Dessa forma, assumindo-se uma nuvem finita nós estaremos também admitindo a existência de um ponto especial nesse sistema, isto é, seu centro, o que obviamente contraria o princípio cosmológico (e Copernicano). Esse problema pode ser minimizado se pensarmos que a nuvem de gás é uniforme até a sua borda, isotrópica ao redor de seu centro e, dada a arbitrariedade de seu tamanho, muito maior do que qualquer distância astronomicamente medida. Dessa forma, qualquer galáxia que pudermos detectar veria ao redor de si mesma um universo homogêneo e isotrópico com uma precisão arbitrariamente alta. Portanto, o fato de sermos forçados a admitir um universo finito não chega a ser um problema sério pois como podemos pensá-lo como sendo arbitrariamente grande, do ponto de vista observacional não poderíamos distinguir um universo infinito de um finito cuja extensão fosse grande o bastante para ser maior do que qualquer distância astronomicamente mensurável. Apesar dessa argumentação estar aberta a objeções, podemos pelo menos aceitar as considerações acima como sendo úteis em uma primeira abordagem teórica do problema dadas as dificuldades da aplicação da teoria Newtoniana no contexto cosmológico. Com essa discussão em mente, voltemos agora ao modelo contínuo.
Uma forma alternativa de apresentar a cosmologia Newtoniana é a de
iniciarmos nossa discussão considerando apenas a cinemática da
nuvem do gás cosmológico. Na medida em que o movimento das partículas
do gás é assumido ser estritamente radial, então
Para discutirmos a dinâmica do gás, podemos impor a equação de movimento
na forma da equação de Euler. Lembrando que de acordo com o princípio
cosmológico as quantidades cósmicas dependem somente do tempo, então
a pressão na nuvem de gás será dada por p=p(t). No entanto, os
modelos cosmológicos mais simples e populares são exatamente aqueles
com pressão nula, isto é, com equação de estado de poeira, e assim
assumiremos p=0 nesse trabalho, o que implica que a nuvem de gás
cosmológica é na realidade uma nuvem de poeira (matéria
incoerente).9 Portanto a
equação de Euler toma a forma
Essa equação mostra claramente que um universo estático, isto é,
aquele em que
,
só é possível no caso trivial onde a densidade é zero. Tal
resultado foi a principal dificuldade enfrentada pela cosmologia
no final do século passado e a forma proposta para superá-la foi a
adoção de uma força adicional que somente seria apreciável a grandes
distâncias, sem efeitos no sistema solar. Tal foi feito por Neumann e
Seeliger em 1896 (Bondi 1960; North 1965; Schüking 1967b), embora isso
tenha gerado enormes e, na época,
insuperáveis críticas pois implica em uma modificação arbitrária
da lei de gravitação universal de Newton sem uma aparente justificativa
empírica. Após o advento da cosmologia relativística, Einstein modificou
suas equações através da adoção da famosa constante cosmológica cujo
objetivo era o de permitir um universo relativístico estático. O
análogo Newtoniano dessa modificação é equivalente ao originalmente
proposto por Neumann e Seeliger e implica na adoção de um termo
proporcional à distância e independente da densidade. Todavia,
estritamente falando tal termo não é necessário se, ao contrário de
Neumann, Seeliger e, inicialmente, Einstein, assumirmos a hipótese
originalmente formulada por Friedmann e posteriormente comprovada
empiricamente por Hubble, de que o universo não é estático, mas
dinâmico. Essa hipótese remove as dificuldades conceituais mencionadas
acima acerca da equação (50), fazendo com que a proposta de
modificação da lei de Newton se torne desnecessária.
Apesar de sua possível irrelevância, uma vez proposta não foi mais possível ignorar a constante cosmológica, a qual, mesmo sendo controversa, é freqüentemente utilizada em cosmologia. Um dos principais motivos para a sua permanência decorre do fato de que todas as vezes em que foram encontradas discrepâncias entre a teoria e as observações, a constante cosmológica é relembrada e reintroduzida na teoria como uma tentativa de explicar essas possíveis discrepâncias. No entanto, uma vez que tais discrepâncias são resolvidas, a constante cosmológica é abandonada novamente, em geral até que novas discrepâncias apareçam e o ciclo se repita. Por essa razão o termo cosmológico é apresentado nesse trabalho. No caso da abordagem usada nessa seção, o termo cosmológico será introduzido por meio do método que se segue.
Se assumirmos que a força gravitacional de uma partícula em
é devida inteiramente à matéria contida em
com centro em
,
então a força gravitacional será dada por
Antes de concluir essa seção devemos observar que a finitude da nuvem de poeira cosmológica é necessária não só devido ao problema da divergência do potencial Newtoniano no infinito, como mencionado acima, mas também devido ao fato de que a lei de velocidade-distância (44) só é válida no contexto Newtoniano para galáxias com pequenas velocidades relativas se comparadas com a velocidade da luz. Assim, a teoria Newtoniana só é aplicável se duas galáxias vizinhas tiverem pequena velocidade de recessão. Portanto, se quisermos calcular a aceleração dos fótons de origem cosmológica não podemos utilizar a teoria discutida acima na medida em que ela é válida apenas para o movimento de partículas (galáxias) em baixa velocidade e em volumes esféricos limitados (Callan, Dicke & Peebles 1965).
A equação diferencial cosmológica obtida nas seções anteriores permite
uma descrição completa da dinâmica da nuvem de poeira na medida em que
sua integração fornece a função R(t) que determina o
comportamento do modelo. No entanto, em cosmologia não basta saber a
forma da função R(t) pois é necessário considerar como seria
possível a um observador em
obter medições acerca das
galáxias distantes. Na medida em que essas observações implicam na
análise da luz proveniente dos objetos distantes, a propagação da
luz deve ser considerada em modelos cosmológicos.
É exatamente nesse ponto que a fraqueza e limitação da abordagem Newtoniana da cosmologia se faz mais clara, pois devido ao fato de a teoria Newtoniana não ser capaz de lidar com o eletromagnetismo, o comportamento dinâmico do sistema não determina as propriedades da luz. Tal problema não existe na abordagem relativística da cosmologia pois o próprio nascimento da relatividade, na sua forma especial, veio justamente como uma forma de resolver os problemas decorrentes dessa divisão entre a dinâmica e o eletromagnetismo. No entanto, como o objetivo desse trabalho não é o de discutir a cosmologia relativística, a única maneira de prosseguirmos na análise Newtoniana da propagação cosmológica da luz é através da adoção de hipóteses ad hoc que tem como objetivo obter os mesmos resultados que os da teoria relativística.
Tendo essa discussão em mente, podemos então apresentar o
seguinte resultado: em cosmologia Newtoniana a ``equação
do fóton'' que descreve a propagação dos raios de luz que
se afastam ou se aproximam de um observador é dada respectivamente
por (Bondi 1960; Schücking 1967a),
Como mencionado anteriormente, a única justificativa para o uso neste contexto da equação (58) é de que o resultado final é o mesmo que o obtido via considerações relativísticas, desse modo permitindo uma interpretação cosmológica para o observado desvio para o vermelho das galáxias. De maneira similar pode-se obter uma relação para a equação de magnitude aparente versus o desvio para o vermelho (ver Haggerty & Wertz 1972).
Esse artigo apresentou as idéias fundamentais a partir das quais uma cosmologia homogênea e isotrópica pode ser formulada se considerarmos apenas a teoria elementar de gravitação. Usando-se um espaço plano e estático, o tempo Newtoniano, a dinâmica e lei de gravitação universal e o princípio cosmológico, foi possível obter, primeiro por um método discreto posteriomente generalizado para o caso contínuo, uma equação diferencial cosmológica que tem a mesma forma que a equação de Friedmann obtida a partir de argumentos relativísticos. Além disso, mostrou-se que a lei de velocidade-distância ocorre como conseqüência das hipóteses assumidas. A partir da equação de Poisson, das equações básicas da hidrodinâmica, isto é, as equações da continuidade e de Euler, e assumindo-se que o Universo é formado apenas por matéria incoerente (poeira), foi possível reobter a mesma equação diferencial cosmológica. Verificou-se também que na mais simples abordagem Newtoniana da cosmologia homogênea e isotrópica é inevitável a conclusão de que o universo precisa ser considerado finito, porém sua extensão pode ser arbitrariamente grande. Discutiu-se também o comportamento da luz nesse modelo, onde ficou evidenciada a fraqueza da abordagem Newtoniana da cosmologia devido à incapacidade dessa teoria em lidar dinamicamente com a luz. Com esse fato em mente, mostrou-se que o efeito cosmológico do desvio para o vermelho das galáxias é explicado via a adoção de uma equação cuja única justificativa é de que ela é capaz de reproduzir os resultados obtidos através de um tratamento relativístico.
Como vimos acima, mesmo tomando a teoria da relatividade geral como a melhor teoria física capaz de descrever o Universo, a teoria Newtoniana permite fornecer vários resultados algebricamente equivalentes. Desse modo, vale a pergunta: qual é o papel da abordagem Newtoniana na cosmologia moderna? Ao estudarmos cosmologia, poderíamos então simplesmente ignorar a relatividade, junto com seu pesado cálculo tensorial e seus difíceis conceitos geométricos, e utilizar somente o modelo Newtoniano na medida em que essa teoria fornece resultados algebricamente equivalentes e, como teoria, é muito mais ``simples e natural''? As respostas a essas questões levantam uma série de aspectos conceituais importantes que precisam ser levados em consideração em cosmologia.
Em primeiro lugar, como vimos acima, só foi possível construir uma cosmologia Newtoniana que fizesse sentido quando usamos uma série de hipóteses que somente se tornaram claras após o advento da cosmologia relativística. Em particular, o princípio cosmológico, a expansão do Universo e a aproximação hidrodinâmica foram fundamentais. Assim, do ponto de vista conceitual e histórico, pode-se considerar a cosmologia Newtoniana como sendo ``filha'' da relativística. Essa interpretação é reforçada quando se observa que o próprio Newton já havia notado que sua teoria da gravitação universal encontrava problemas sérios quando aplicada a sistemas infinitos, o que pode explicar porque uma cosmologia Newtoniana não precedeu o aparecimento da relatividade geral (Kerszberg 1987). Dessa forma, foi necessário o aparecimento da cosmologia relativística para que fossem encontrados os limites apropriados a serem aplicados à teoria Newtoniana a partir dos quais uma cosmologia pudesse ter origem nessa teoria. Portanto, para ser construída, a cosmologia Newtoniana necessitou dos resultados fornecidos pela relatividade geral e, como conseqüência disso, ela surgiu como um resultado da cosmologia relativística, e não o inverso.
Com essa perspectiva em mente, podemos então interpretar a hipótese da finitude do universo Newtoniano e afirmar que para que tal hipótese faça sentido somos forçados a concluir que a cosmologia Newtoniana é uma aproximação local da cosmologia relativística. Esse ponto de vista encontra ampla aceitação atualmente (Bondi 1960; Zel'dovich & Novikov 1983; Peebles 1980) e, por exemplo, está nos fundamentos de uma parte substancial da abordagem de Peebles da cosmologia, a qual considera que a distribuição das galáxias pode ser tratada a partir de um espaço plano Euclidiano, desprezando efeitos de curvatura (Peebles 1980, p. 143).
Considerar a cosmologia Newtoniana como sendo uma aproximação local levanta a questão sobre o que consiste exatamente essa aproximação pois, como vimos, a expansão do Universo já está descrita na abordagem Newtoniana. Nesse aspecto podem existir pontos de vistas distintos, mas segundo a análise mostrada acima talvez a melhor perspectiva seja a de que é no comportamento da luz que ocorre a distinção mais importante (essa é essencialmente a perspectiva de Bondi 1960). Na medida em que a teoria Newtoniana não descreve a dinâmica das cargas elétricas, é o comportamento da luz que deve servir de base para se estabelecer os limites dessa aproximação, e tal somente pode ser feito de um ponto de vista relativístico onde fique explícito o grau dessa aproximação, isto é, até onde podemos usar a teoria Newtoniana em cosmologia. Em uma linguagem relativística, isso significa que são as geodésicas nulas que determinarão essa aproximação.11
Outro critério bastante difundido é, como discutido ao final da seção 5, o de admitir a aproximação Newtoniana como válida apenas para o movimento de galáxias com baixa velocidade de recessão se comparadas à velocidade da luz, o que, considerando a lei de velocidade-distância, significa que tais velocidades ocorrerão somente em volumes esféricos limitados. Esses dois critérios não são excludentes, mas complementares, e ambos usam a teoria relativística para estabelecer os limites de validade da cosmologia Newtoniana.12
Mas, uma vez determinada a aproximação Newtoniana em cosmologia, uma outra pergunta de caráter conceitual torna-se óbvia: se, dentro dessa aproximação, as duas teorias produzem os mesmos resultados algébricos, então elas não seriam equivalentes? Esse foi o ponto de vista avançado por Milne em seu trabalho original e tinha por objetivo fundamentar seu polêmico ponto de vista de que a relatividade geral não era essencial para se estudar problemas cosmológicos (Milne 1934; ver também North 1965; Kerszberg 1987). No entanto, é importante frisar que equivalência algébrica não implica em equivalência conceitual. Mesmo que as duas teorias cheguem a equações iguais, elas partem de pontos de vistas bastante distintos e interpretam os termos dessas mesmas equações de forma diferente. Assim, como observado acima, na teoria Newtoniana a constante k está associada à energia do sistema, enquanto que em cosmologia relativística esse termo designa a curvatura do espaço.
Uma análise detalhada da questão da possível
equivalência entre as duas teorias foi feita por McVittie
(1954) por meio do método no qual a cosmologia Newtoniana
é obtida da relativística no limite
.
Nesse trabalho, McVittie chega à importante conclusão de que
a constante cosmológica relativística não gera
uma força proporcional à distância como postulado pela
equação (6) no limite Newtoniano, mas que nesse
limite ela se manifesta apenas como uma constante aditiva
à pressão. Portanto, assim como no caso da constante
k, não há equivalência quanto à interpretação do
efeito físico proporcionado pela constante cosmológica
nos dois modelos.
A comparação entre as duas teorias também foi objeto das investigações de Raychaudhuri (1957) que concluiu que para um mesmo sistema físico estudado a teoria Newtoniana fornece menos equações do que a relativística e, portanto, parece que em geral os modelos relativísticos terão análogos Newtonianos, mas que o inverso não é necessariamente verdade.
Para concluir, já observamos que a cosmologia Newtoniana deve ser compreeendida como uma aproximação local, mas como tal, e apesar da questão da interpretação dos seus termos quando comparada à cosmologia relativística, ela funciona como uma excelente ferramenta teórica em cosmologia. Como alguns exemplos de suas aplicações pode-se citar que além do modelo homogêneo e isotrópico desenvolvido nas seções anteriores, é possível discutir-se um modelo cosmológico de estado estacionário (com criação de matéria) no contexto Newtoniano (Landsberg & Evans 1977, p. 125) e também cosmologias Newtonianas homogêneas e anisotrópicas semelhantes à classificação de Bianchi (Hibler 1976). Em um contexto astrofísico, a teoria Newtoniana fornece métodos para se discutir problemas como o levantamento do campo de velocidades peculiares utilizando apenas suas componentes radiais fornecidas pelos catálogos de galáxias: o método conhecido como POTENT (Dekel, Bertschinger & Faber 1990). Finalmente, nesse mesmo contexto astrofísico é importante mencionar que os primeiros modelos cosmológicos hierárquicos (fractais) foram desenvolvidos dentro da cosmologia Newtoniana (Wertz 1970, 1971; Pietronero 1987) e os fundamentos da teoria de formação de galáxias, isto é, a evolução das não-homogeneidades em um universo em expansão por meio de perturbações, também pode ser discutido em um contexto Newtoniano (ver Ellis [1990] e referências citadas no artigo).
Portanto, a cosmologia Newtoniana tem seu lugar em cosmologia e, parafraseando Schücking (1967b), talvez possamos compara-la à cosmologia relativística de forma similar quando se compara a teoria de Bohr à mecânica quântica: uma aproximação útil e simples que em alguns casos permite derivar resultados equivalentes ao relativísticos de uma forma muito mais simples.
Gostaria de agradecer meus estudantes Alexandre Y. Miguelote e Newton J. de Moura Júnior por discussões que me levaram a reescrever algumas passagens obscuras no manuscrito original. Esse trabalho foi realizado com o suporte financeiro do CNPq.
Neste apêndice procurarei apresentar as principais soluções da equação diferencial cosmológica (17) ou (56), isto é, as soluções onde o termo dado pela constante cosmológica é zero. Como vimos acima, com a constante C definida pela relação (38) ou (57), a equação diferencial cosmológica tem a mesma forma algébrica que a equação de Friedmann e, portanto, os resultados acerca da dinâmica dos modelos cosmológicos obtidos nessa seção são também válidos em cosmologia relativística. Esse modelo de universo é convencionalmente chamado de modelo cosmológico padrão.
Para estudarmos a evolução do universo por meio da equação (56), é conveniente dividirmos o problema em três casos distintos: aqueles em que k=0, k=+1 e k=-1.
Nesse caso a equação (56) torna-se
Próximo da Grande Explosão R é pequeno e, portanto, o termo
C/R domina sobre
na equação (56).
Lembrando que pelas suas definições
Nesse caso a equação (56) pode ser escrita como
Com esse valor de k a equação de Friedmann torna-se
Como vimos acima a equação de Friedmann produz modelos cosmológicos com comportamentos dinâmicos distintos: os modelos de Einstein-de Sitter e de expansão eterna expandem indefinidamente enquanto que o modelo oscilatório não. Muito da cosmologia observacional atual gira em torno da tentativa de identificar qual desses três modelos cosmológicos corresponderia ao Universo observado, e uma das ferramentas fundamentais nesse estudo são os chamados parâmetros cosmológicos, cuja medição é obtida através da cuidadosa observação das galáxias e seu conteúdo estelar. Até agora dois já foram apresentados: os parâmetros de Hubble e de desaceleração. Agora veremos como q(t) e a densidade se comportam nos diferentes modelos.
Ao diferenciarmos a equação (56) em relação
ao tempo e a multiplicarmos por
,
lembrando a definição de q(t) obtemos
O parâmetro de desaceleração também está relacionado à
constante k. Em t=t0 a equação (83) mostra que
Finalmente, podemos ainda definir um parâmetro
de densidade conforme a equação,
A utilização dos parâmetros acima permitiria, pelo
menos em princípio, a determinação observacional
de qual dos três universos de Friedmann corresponde
ao Universo observado e, sob essa perspectiva, o
problema cosmológico fica na prática
reduzido à determinação astronômica de alguns
parâmetros bem definidos, isto é, fica reduzido à
determinação observacional de H0,
,
q0,
.
No entanto, essa determinação está
longe de ser trivial, sendo freqüentemente bastante
problemática e incerta, além de não ser conclusiva
pois gera valores bastante distintos dependendo do método
observacional utilizado. Os valores atualmente aceitos para
esses parâmetros são,
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The translation was initiated by Marcelo B. Ribeiro on 1998-09-02
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